A demissão de Marina Silva

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Publicado no blog do Guilherme Scalzilli (http://www.guilhermescalzilli.blogspot.com)

A prudência recomenda evitar a onda de beatificação da ex-ministra Marina Silva. A mesma imprensa que ignorou suas conquistas hoje as incensa para forrar de pregos o assento de Carlos Minc. Até semanas atrás, a gestão ambiental brasileira era tratada como motivo de vergonha perante a comunidade internacional. Agora vemos que não devíamos exigir a demissão da responsável pela área, mas mantê-la, trocando todo o restante do governo.
A condescendência da mídia, idealizando suas origens humildes (Lula não desfruta da mesma generosidade), reproduz os preconceitos do infame fazendeiro que chamou Marina de “indiazinha doente”. Ela é a Heloísa Helena do momento: dissidente bem-intencionada do governo dos pilantras, afagada por comentaristas que a ridicularizam pelas costas.
Há muito oportunismo nessa politização do discurso ecológico. O catastrofismo messiânico serve para isentar os verdadeiros destruidores da natureza, que há décadas financiam parlamentares e governantes das regiões atingidas. Não por acaso, a bandeira ambientalista vem sendo constantemente apropriada por forças conservadoras, proporcionando-lhes um confortável carimbo progressista – a glorificação de Al Gore e as filiações e alianças do Partido Verde brasileiro falam por si sós.
Uma crítica séria ao preservacionismo dispensa ponderações sobre a importância de suas plataformas. Ninguém precisa fazer média com a ilibada reputação de Marina Silva para afirmar que sua demissão também reflete, entre outras coisas, incapacidade político-administrativa. Tampouco é o caso de martirizá-la.
Marina viveu cercada por pressões de grupos que sobrevivem do combate cego à manipulação da natureza, mesmo quando se trata de aprimorar a vivência humana com projetos infra-estruturais legitimados pelas urnas. Ministérios não possuem vida própria. Eles existem para compor um programa administrativo abrangente, não para obstruí-lo, atrasando empreendimentos urgentes com justificativas dogmáticas.
A questão continua mergulhada num limbo opinativo de pendores futebolísticos. Ninguém quer discutir a viabilidade da cartilha ambientalista num contexto de necessidades generalizadas e riquezas naturais subutilizadas. Mais fácil e conveniente é alimentar o fundamentalismo caricato, anti-social e obsoleto, que depende da existência de inimigos imaginários para justificar a própria e que, portanto, evita aniquilá-los.
Não precisaria muito para identificar os criminosos de carne, osso e CNPJ escondidos sob a mitologia do Branco Malvado, dos Usineiros Demoníacos e das Represas do Apocalipse. Mas então seríamos obrigados a enfrentar jagunços armados, expulsar ONGs “amigas” e processar empresários, deputados, senadores, governadores, prefeitos, vereadores, juízes e funcionários federais. “Ai, que preguiça”, murmuram os Macunaímas.
A pretensa modernidade do discurso preservacionista concede-nos o espetáculo dos bispos suicidas, dos índios que agridem engenheiros a golpes de facão, do separatismo amazônico e das ameaças de intervenção estrangeira em território soberano. A ignorância e a hipocrisia são venenos devastadores.

É isso aí : "A ignorância e a hipocrisia são venenos devastadores." !
Disse tudo.

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