Viagem fantástica
Seattle – Segundos depois de despertar numa fria manhã em 10 de dezembro de 1996, a neuroanotomista norte-americana Jill Bolte Taylor sentiu uma fisgada na cabeça, semelhante àquela sensação de quando tomamos sorvete rapidamente. Levantou-se e, já no banho, perplexa e intrigada, sentiu estar numa viagem alucinógena, onde os pingos do chuveiro pareciam brincar com as células do seu corpo. Aos 37 anos, uma das maiores especialistas do mundo em cérebro estava sofrendo um derrame cerebral provocado por uma hemorragia craniana do tamanho de uma bola de golfe. Nas quatro horas seguintes, foi médica e paciente, feitiço e feiticeira, atriz e espectadora: numa cronologia aterrorizante, assistiu de camarote à perda da fala, da capacidade de ler, de escrever e de reagir a estímulos externos, sentidos alojados na parte esquerda da sua cabeça. Virou uma criança num corpo de mulher. Depois de operada, extirpada a hemorragia, demorou nove anos para se recuperar.
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