Intrometida
Esfrego as mãos, arregaço as mangas. Quero saber quem você é, do que gosta, do que tem medo, o que perturba sua vida e o que estimula seu coração?
Saber dos personagens guardados na gaveta, onde suas fantasias ocultam dores, empilhamsuas falsas lembranças. Calma, mulher! Você não se prometeu evitar o risco desse estusiasmo? Afinal, há que ter cuidado. Você está indo tão bem, vai pecar contra si mesma?
A palavra na ponta da língua, à sombra da sua voz escuto meu coração bater deslocado.
Encontro, dentro do copo, o medo guardado em cada bolha de gás. Assim meu susto
ganha tempo para que você ganhe espaço.
Não se incomode, disfarço a malícia e destraço o rastro do beijo. Digo quero e mereço o sulcode ternura filetado no seu rosto, onde escondo meu desejo, porque ainda me assalta o sonho de lhe tomar a força desse fantasma. Sua firmeza me acena como um alarme e desfaz o risco.
Nesse caso, melhor eu nos braços de mim. No suspiro de cada renúncia, deixo o projeto de amor afundado no travesseiro. Prefiro dormir aninhada nas páginas do livro que sabe contar histórias.
Desperto a salvo da minha fábula solitária e afio as unhas, aliso as plumas, estico os
cílios e pisco um olho para a próxima tatuagem.
Na calçada, olho pela janela. Bem que eu vi no retrato uns olhos recém-nascidos exaustos e nas pupilas duas grutas: numa o coração vendado e na vizinha um caçador enclausurado na memória enamorada - contra-armadilha - trancada para o amor inoportuno que chegou assobiando, entrou pelo umbigo e avançou pelo meio num compasso rebolado até o nó na garganta.
Lá dentro, depois do soluço, estava ela - na ponta dos cascos-a danada guardiã, bichopapão bem treinado pelo próprio senhor para barrar carinho, atrevimento, beijo que promete paraíso, algum estilhaço da manhã pós-desacato, um traço de desejo assanhado.
O dia se arrastava e as mulheres, ali na calçada, olhavam o portão eletrificado pelos nervos da dona dos olhos do homem do retrato.
Elas torciam, sem nenhum plano e com os sentimentos em desordem, pelo amor levado
que "pulou o muro subiu na árvore"*, não bateu na porta e estava a ponto de ser
devorado.
Essas mulheres!
Saí da esquina, cheguei perto delas e disse:
- Ai, que miséria de sempre a mesma novela, o mesmo logro, o mesmo engano. Tem jogo de futebol aqui perto, num terreno livre e cheio de homens reais e raçudos.Vamos?
Elas me olharam, saíram da inércia e disseram baixinho sua nova palavra de ordem:
histórias de amor nunca mais.
* Carlos Drummond de Andrade, O Amor Bate na Aorta
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