Ainda Orangotangos
O principal atrativo de Ainda Orangotangos, lançado nesta semana, é ter sido realizado inteiramente num único plano seqüência. Nesse tipo de tomada cinematográfica, a câmara se move sem cortes, em meio a um ou mais ambientes, focalizando coisas e pessoas em movimento e sob diversos ângulos. Desse modo, o espectador vê a ação no presente absoluto, ou seja, no mesmo tempo em que ela se desenrola. Absorve o material filmado tal como percebe a realidade, igualando o seu ponto de vista ao da própria câmera. A primeira experiência notável nesse sentido foi realizada por Hitchcock, em 1948, com Festim Diabólico. A maior dificuldade era a obrigação de alimentar a máquina de filmar toda vez que o filme acabava. Assim, ele disfarçava os inevitáveis cortes quando a lente focalizava um ponto fixo e neutro no cenário. Depois disso, outros diretores compuseram longos e intrincados planos seqüência dentro de seus filmes – como Orson Welles, com A Marca da Maldade de 1958 e <?xml:namespace prefix = st1 ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:smarttags" />Antonioni, com Passageiro Profissão Repórter de 1975. Já com recursos digitais, em 2002 Sokurov fez Arca Russa, igualmente numa única tomada. Enfim, o gaúcho Gustavo Spolidoro apresenta Ainda Orangotangos, o seu primeiro longa, recorrendo também a esse procedimento – sem, no entanto, alcançar o mesmo nível de resultado. Uma série de fatos desconexos e irrelevantes são captados pela câmara ao longo de 14 horas em Porto Alegre. Não há cortes, nem emoção ou qualquer outro motivo que justifique acompanhá-los.
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