Olho de boi
O cearense Hermano Penna pode ser chamado de cineasta bissexto porque de vez em quando ele apresenta um trabalho novo. É pena, porque o seu primeiro longa, Sargento Getúlio foi o maior sucesso brasileiro, de crítica e de público, em 1983. Tinha Lima Duarte no elenco e se baseava num texto de João Ubaldo Ribeiro. Agora ele lança Olho de Boi, prêmio de melhor ator para Gustavo Machado e de melhor roteiro, para o também ator Marcos Cesana, no Festival de Gramado de 2007. O filme se apresenta como uma adaptação livre de Édipo Rei, transplantado para um sertão mineiro atemporal, que em tudo lembra o universo mítico de Guimarães Rosa. Mas quase nada tem a ver com a trama da tragédia de Sófocles, a não ser o assassinato no seio de uma família. Lembra mais um Otelo sertanejo, enlouquecido pelo ciúme. Um peão de fazenda resolve matar o próprio irmão, por causa da suspeita de que ele estaria tendo um caso com a sua mulher, interpretada por Angelina Muniz. Os diálogos são bastante saborosos; os atores se mostram convincentes e bem dirigidos; a iluminação predominantemente noturna é marcante e expressiva. Enfim, está tudo em ordem, a não ser por um aspecto básico: o roteiro é demasiadamente teatral. Tanto que 90% de Olho de boi se resume a um interminável diálogo entre o assassino e seu filho adotivo, que é também o responsável pela denúncia de traição e motor do enredo.
LUCIANO RAMOS
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